Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

A arte clandestina pinta ou suja as ruas?

As respostas a esta questão vão da irritação ao silêncio. Há graffiti por todo o país, dos centros históricos aos subúrbios. E nós, que vivemos rodeados por eles, nem sabemos bem o que são, e Eles estão mesmo nas nossas paredes. São graffiti, são tags, mas também cada vez mais stencils, autocolantes, wheatpaste, arte de rua, intervenção urbana. Perguntar quais são arte e quais são lixo - qual a fronteira? - é procurar uma resposta ilusória.
"A pergunta é válida e há diferenças, mas é e será sempre subjectivo". Avaliar um tag - o nome escrito na parede com letra estilizada - e decidir se é apenas um rabisco que suja, um acto de vandalismo sobre uma superfície que não o merece. Ccomo diz André Torgal, uma espécie de etnógrafo da arte urbana e dos graffiti... A única coisa que pede um entendido como Torgal "é que não se rejeite tudo à partida". André Torgal é analista de sistemas informáticos, tem 23 anos e mantém a página sa.culturalivre.com, onde colige centenas
de imagens do que vê na rua. "As pessoas estigmatizam os tags, como sendo vandalismo, em relação aos quais são contra. Mas os graffiti andam lá perto, umas vezes são arte, outras vezes são vandalismo."

  Natxo Checa, director da galeria Zé dos Bois (ZDB), no Bairro Alto, em Lisboa, define os graffiti como "manifestações populares, oriundas sobretudo dos Estados Unidos, que passam a fazer parte do visual urbano" e que implicam alguma revolta, pela ilegalidade que os impregna. A crítica que se solta quando se vê uma parede toda assinada, de forma aparentemente anárquica, surge "porque toda a arte urbana é feita em propriedade alheia", o que está mesmo a pedir uma reacção, diz André Torgal. E, por vezes, é a mesma pessoa que, num "impulso", faz os murais que muitos admiram e desfigura com tags um edifício que todos querem proteger, históricos e até recuperados, esclarece.

  Isto é o que dizem dois observadores convictos. Tudo seria mais fácil se "eles", os que fazem graffiti nas ruas de Portugal, explicassem o quê e porquê que fazem o que fazem. Mas após alguns contactos, a resposta foi sempre a mesma: os writers não gostam de falar.

  Há em todo o país, do Bairro Alto, uma das zonas da noite de Lisboa, à Travessa da Cedofeita e Bairro da Bolsa, de Siza Vieira, no Porto, passando por praticamente todos os subúrbios e centros históricos de todas as cidades.

  O BOOM

 O graffiti, expressão integrada da cultura hip-hop vinda da Nova Iorque negra dos anos 80, mas que já existia antes, no punk dos anos 70; o stencil, a pintura com recorte que é da família dos murais de mensagem política; os autocolantes e colagens, formas de intervenção urbana que em Portugal são bem menos politizadas do que nos EUA ou no Reino Unido. Todos estão ao fresco, expostos como arte - ou não - na rua.

  Lisboa e Porto assistem há muito a um crescimento da indústria dos graffiti, com lojas especializadas a vender tintas (em Lisboa há várias) e anúncios na Internet como este: "Executamos trabalhos de graffiti em qualquer espaço e dimensão. Fazemos workshops com crianças, pintamos telas, skates, pranchas, etc." Esta é a face legal dos graffiti, quando eles não são vandalismo, feitos com autorização ou por encomenda, como arte decorativa.

  "Tags sem sentido"

  Phil Baines, professor de Tipografia na célebre Central Saint Martins College de Londres, vocacionada para a moda e o design, esteve em Lisboa no Outono para as jornadas da Association Typographique Internationale, no âmbito das quais promoveu uma visita guiada pelas "letras" de Lisboa. Observador reticente da arte de rua e dos graffiti, Baines constatou o aumento da presença da escrita clandestina em Lisboa. Visitou a capital em 2003, em busca da herança tipográfica lisboeta, e encontrou e documentou "muitas imagens e stencil, sobretudo anti-EUA", por alturas da invasão do Iraque. Mas nesta última visita, o cenário era diferente. Em 2003 "não havia muitos tags" e agora, diz apontando para uma esquina da Rua Garrett, "há muito mais tags sem sentido".

  É aqui que está o centro da questão: qual é a intenção de quem faz estas intervenções? Natxo Checa vive com a arte e com estas tendências e manifestações bem integradas no seu universo pessoal e profissional. Como morador de Lisboa e do Bairro Alto, mas também como galerista e comissário, visto que tem como missão "seguir todas as tendências de manifestação e representação estética". Mas Natxo Checa, que veio há anos da Catalunha para Portugal, também não gosta das pinturas que são feitas "sem um sentido" ou pensamento por trás e que enchem o "seu" bairro. Isso não quer dizer que não haja paredes cobertas com nomes caligrafados que não sejam belas aos seus olhos. André Torgal ajuda a complicar: "O tag faz sentido para quem o faz."

  Absorção pela arte

  Sem ser possível desenhar uma fronteira recta, direita e bem definida entre a arte pública, a intervenção política, o belo e o sujo, a verdade é que a rua é uma galeria ao ar livre há séculos. Não só esta é a mais antiga forma de arte do mundo, a "herdeira da pintura rupestre" (palavras de Torgal), como a "própria cultura institucional já a reconheceu". O "etnógrafo da arte urbana" dá como exemplo a valorização patrimonial dos murais do 25 de Abril. Natxo Checa acrescenta o caso-Zapata: os zapatistas de Chiapas, no México, têm nos murais uma forma de comunicação política.

  E, de mansinho, a arte grafitada já está nos museus, apesar de os puristas dizerem que ela não pertence ao reino das fotografias, nem das galerias, mas apenas à rua.

  Essa absorção pela "cultura institucional", o circuito das galerias e museus, pintou-se nos primórdios (anos 80) com as cores do americano Keith Haring (1958-1990), inspirado pelos primeiros writers de graffiti, e com o sucesso de Basquiat. Keith Haring, com "o tipo de intervenção que faz, pop e perceptível", nos anos 1980 da sida nos Estados Unidos, é um exemplo incontornável para Natxo Checa. Foi este tipo de abordagem que abriu caminho para a integração do mister na arte, para que os graffiti e a arte de rua fossem "recuperados e introduzidos no espaço galerístico".

  Quando, em 2006, o Museu de Brooklyn, em Nova Iorque, integrou uma exposição de graffiti, a comissária Charlotta Kotik manifestou a sua esperança de que isso ajudasse a compreender o graffiti. Os writers eram pessoas "com muito poucas hipóteses de serem ouvidas, por isso sabiam que iam receber atenção ao perturbar a ordem estabelecida", disse Kotik à TimeOut de Nova Iorque.

  O artista Terrance Lindall, director-executivo do Centro de Arte e História de Williamsburg, bairro vizinho de Manhattan, corrobora essa ideia. "Na minha opinião, o graffiti é revolucionário e qualquer revolução pode ser considerada um crime. As pessoas que são oprimidas ou suprimidas precisam de uma saída, por isso escrevem nas paredes - é grátis."

  Lisboa, Bairro Alto

 Galeristas e comissários portugueses estão também a convidar a arte da rua a entrar portas dentro dos seus espaços de exposição, ou a concessionar espaços fora delas. Foi o caso do muralista português Rigo, que se dividiu entre o espaço na rua da Barroca, no Bairro Alto, e as ruas de Lisboa para uma retrospectiva do seu trabalho, a convite da ZDB. Já Vera Cortês (que tem uma galeria na 24 de Julho, Lisboa) colocou a street art de Alexandre Farto e Miguel Maurício na Galeria Promontório, para tentar responder, ou pelo menos provocar, com a questão "Pode uma arte "delinquente" adaptar-se ao contexto galerístico sem se subjugar aos formatos socialmente aceites?".

  Sobre a situação no Bairro Alto André Torgal ri-se. "Quem se queixa [das pinturas] são as pessoas que intelectualizaram o Bairro", que migraram para os espaços deixados vagos pelas prostitutas e casas de fado vadio. "São os consumidores do Bairro Alto", que deixam os copos de plástico vazios de bebedeira no chão e nas janelas, que mantêm acordadas as crianças do bairro pela madrugada. "O que lá se passa é o reflexo de uma nova geração", diz André Torgal. "Não há nenhum sítio em Lisboa que esteja mais cagado, mais pixado do que o Bairro Alto", constata o director da ZDB, e isso deve-se ao facto de ser "um sítio de liberdade, de encontro social, que gera esse tipo de atitude".

 

Rita Silva

publicado por TheWriters às 14:29
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